sexta-feira, 24 de agosto de 2007


- O médico acha que é no intestino, agora.
- Como assim, acha?
- Mandou fazer uns exames, mas tem todos os sintomas. Me disseram que a radioterapia ali perto... sabe? - faz um gesto indicando - pode acontecer...
- Mano, o vô vai morrer.
- Vai.



Foi ele que me disse mas, desnorteantemente, ao mesmo tempo me ocorreu que meu irmão ainda não tinha entendido. "Vai", ele concordou, com o mesmo constrangido ar grave meu e de todo mundo ao falar nessas coisas: morrer.
"Ele só tem 19 anos", pensei, e antes de completar o pensamento me dei conta,"...de vida". Mais uma vez diante de uma situação como essa, estou perplexo ante o óbvio que soa até ridículo: não temos experiência de morte. Aliás, morte parece mesmo algo como isto, anti-experiência. Em relação a ela tenho os olhos arregalados e as pupilas monstruosamente dilatadas de quem quer ver no escuro. Não vejo, como todos ou, ninguém. Também não vejo e não apreendo o que mal me pode ser dito. Ninguém alcança. Meu irmão, eu, ou meu avô - que ainda não morremos - nenhum de nós têm sequer um segundo de morte. Mas entre nós todos, continuamos sentindo-a mover-se furiosamente, suavemente...

4 comentários:

Anônimo disse...

Sim... afeto.

Estou aprendendo, amargamente, que as palavras que saem das nossas bocas, sejam poeirentas-aladas ou limpíssimas, tocam o Outro com imensa violência...
[conversamos melhor amanhã... até Dé.]

Guilherme disse...

ah, obrigado.
eu sempre leio o teu blog pelo meu leitor de rss. só não comentei esse post porque achei tão 'sério'.

Jeovana disse...

queremos mais!

Thiago Leite disse...

"Mais uma vez diante de uma situação como essa, estou perplexo ante o óbvio que soa até ridículo: não temos experiência de morte. Aliás, morte parece mesmo algo como isto, anti-experiência. "

Muito bom, André. A morte nos parece tenebrosa quando ainda não a alcançamos por inteiro, mesmo que não sejamos nós a "boa" da vez. Mas quando o individuo (eu, por exemplo)passa por situações que nos fazem o "favor" em colocar a morte como uma situação de perplexidade e inexperiência, aprendemos muito e, com isso, enxergamos o quão nula é a morte. Como já dizia Borges: "[...]a morte do corpo é totalmente insignificante e que morrer deve ser o fato mais nulo que pode acontecer a um homem."