segunda-feira, 12 de dezembro de 2011




Me convença, por favor,

de que afinal isto é só uma coisa desta época, deste tempo, desta idade. Uma coisa que acomete a muita gente e que em algumas se manifesta somente como um jeito, ou uma dor nas costas, o lábio um pouco mais virado. E que, por falta de saberem mesmo de todas essas coisas com as quais eu, por minha vez, já tive contato, já vi, já li, já observei – já que sou um observador tão bom – eu sei expressar melhor. Não fosse isso, teria que procurar um médico.



O cavalo em geral (ideal) é um ser abstrato.



Eu não sou especial de nada, não há nada me aguardando e ninguém virá do Mistério um dia para me raptar. Ninguém irá me apresentar a minha pressentida, clara e distinta vida; minha vocação. Esta que, a propósito, não está neste mundo. Ninguém virá reparar o erro.
É até bonito que eu, por tanto tempo, tenha procurado algo que sentir a respeito disto. Que tenha afinado tanto as antenas.
Mas esta não era a maneira com que eu queria mesmo tratar o texto, entende? Eu sempre procurei um lugar mais natural para ele. Todavia, eu olhava o céu e via desta forma a minha vida. Acho que agora passou.






O objeto imediato das sensações é o estado mental. ↔ Crença contemporânea. O corpo mais nada tem a ver com isso.

Mas, a mente não entra em contato com nada de real. Daí a possibilidade de conceber a nossa teoria da percepção, onde tudo o que é material, pode não ser real.
Essa teoria assume, antes de qualquer coisa, que a percepção é um estado mental. Somos idealistas.








quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sobre meus hábitos




Para não precisar de um cigarro,
precisaria voltar ao estado
de imbecil em mim que tu preenchias.
Te fumo agora, imbecil.
Eu, o imbecil-tu que me fazias.


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Eu saí e quase comprei um livro ou dois, não o fiz. Há cinco anos, tê-lo feito, seria mais verdadeiro. Hoje eu estou como que viciado nestes modos. Para harmonizar qualquer coisa, sigo, condicionadamente um caminho conhecido, assimilado e não estrangeiro. Vulgar em relação a mim mesmo.


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Acho que a gente corre o risco de ter aprendido demais, quando já não há visão sem símbolos. Quando não há percepção sem a lembrança de um deles. Ser excessivamente analítico te torna um místico, dos bons. O oráculo é sempre guardado por um doente. Que tem razão mesmo adoecido. Loucos conhecem a realidade por motivos de loucura.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

XIII (Meu medo, tua força)

As velas negras de uma vez hasteadas
como um susto de peixe.
Tudo só podia ser pálido diante disto.
Como num conto infantil sombrio e germânico,
o ser de agosto se trancou no porão e de lá ficou ameaçando...

Naveguei por meses alimentando-o com o pavor destilado de meu rosto.
Para ser salvo, implorei aos céus por um dragão,
Veio um raio que me arrebentou o casco inteiro.







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terça-feira, 14 de junho de 2011

Búzio Oco

De aproximar
o ouvido, fez um vento dentro da concha:
seu poder de ouvir era enorme.
O espiral do som agulhou
seu tímpano! Abril.
E a coisa que buscava saber,
lá de dentro, lhe negou seu nome.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O cúmulo de si mesmo



Um jeito novo. Real.

Tornar-me real, cada vez mais próprio é o meu novo modo. Tem a ver com os ouvidos, pouco com os olhos e nada com a boca.

Eu sou um tradutor agora.

Tem a ver com o tempo que passo usando em vez de buscando. Tem a ver com o que seguro entre o mundo e eu. Desenvolver o que não precisa se sustentar ou defender, porque se é. Não defenderei mais a mim mesmo. Aí terei o melhor de tudo.






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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Lá, sob o céu de madrepérola
ela não foi minha mãe
foi velha
que me acomodou por cima
da língua brilhosa. Visco e brancura.
a mesma seda lentamente me envolvia
e eu, a nada vinha
prestava a atenção no brilho rosa.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Passou o janeiro

A umidade grisalha de teu pêlo
gigante das neves
tem em comum com o universal apelo das coisas frias,
Um grito mofado. Teu corpo: montanha e parede.
Tua sombra gigante, um poder já passado.


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Vens
de agosto úmido ou pesado janeiro?
gigante das neves,
teu ronco profundo é da cor, consistência
e mesma força de tua sombra.
tua origem dura é conhecida, invulnerável e provada,
mas também coisa a ser esquecida.