sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Acidentes (3)

O outro final, para mesma história tem a particularidade de se encaixar numa possibilidade do real. É assim:
A moça entra em casa, a situação emocional em que todos são colocados ao vê-la é indescritível. Não é apenas como seria o caso de descobrirem antes do velório o engano. A estranheza inicial de estarem em presença, ao mesmo tempo, de seu corpo inerte e dela mesma coloca-os numa confusão mental de quem experimenta uma intervenção do fantástico no real, uma concretização do absurdo. Em seguida, evidentemente, o engano é desfeito e assim que todos recuperam seu apoio no mundo como ele sempre foi, generaliza-se entre os presentes o alívio e a euforia, especialmente para sua mãe. A velha mulher que achava o suicídio pouco cristão renovou suas esperanças no espírito da filha, que ela tinha percebido sempre um pouco desencontrada e capaz de não amar a si própria o suficiente ou não temer mesmo, suficientemente, a ira divina. E isso mesmo é o germe do que muda o olhar da moça após o acontecido. Após a própria morte prematura, permanecer entre os seus e conhecer os juízos que fariam a seu respeito dentro da possibilidade de sua ausência. De pronto acreditaram que o corpo suicida nas pedras era ela? Ela avisou que sairia de casa naquela noite e passaria fora um bom tempo. Acharam que a despedida significava mais que o explícito: que ela sairia de casa naquela noite? Por quê? O que ela havia sido até então que a tornara uma potencial suicida para quem a conhecia? No cadáver estranho e um pouco desfigurado que ela tinha encontrado na sala ao chegar e sobre o qual choviam olhares consternados, de fato, era possível imaginar muitas feições iguais às suas. Mas também era possível não imaginar. O que os fez reagir do primeiro modo? Qual a distância entre o que se tenta ser e o que isso representa para as pessoas para quem se tenta ser? "É que tem coisas que pensam da gente, que machucam". Foi a frase que ela mais repetiu para si mesma, na sua aflição de espírito emocionalmente honesto, tentando justificar seu inesperado desapontamento em contraste com a inédita alegria que ela mesma causou.

3 comentários:

Jeovana disse...

adorei esse :}

Lilly disse...

André,
divino... eu me identifiquei com os 3: primeiro, ter as rédeas da vida e perder. Acontece, e às vezes de uma forma que nos tira o rumo. Segundo, renascer das cinzas como Fênix, recriar-se sem ter que preencher as expectativas de ninguém. E por último, constatar que ninguém, além de nós mesmos sabe o que vai dentro da nossa cabeça. E temo que às vezes, nem nós mesmos. Tenho sentido tudo isso que você descreveu nos últimos 3 anos.

Um grande beijo.

André Lima disse...

Que bom que gostou, Lilly!
É um orgulho tê-la como leitora.

Digo o mesmo para a Ji, que nem apareceu mais...