quarta-feira, 11 de março de 2009

Nós e o bicho

De mim, tu exigistes sempre que eu entendesse o quanto você era forte. Mais forte. E eu até demorei, mas vi isso em ti. Nos teus olhos eu vi que era mais fácil ser mais forte que tudo. Mais que toda não apreciação, que toda guerra de nervos, que todo o esforço em fugir sempre de um consenso e crer que toda solução e paz, afinal, se encontram no acatamento de uma idéia preexistente em um dos dois. Sim, entendi isso tudo muito, e bem, e decantadamente. E desencantei-me então; descongelei-me e num raio fantástico congelei a ti onde tu estavas. Foi assim que tudo se deu.
De ter visto tudo o que exigias tanto que eu visse, eu perdi o medo de não temer mais teus tristes olhos que, quando tristes, continuavam lindos e enormes, só que avermelhados de pranto que se segura. Depois de um tempo, eu inteiro doí mais que a visão disso. Que a contração de tudo isso. Que o não esquecimento disso. Que a acumulação desses "issos". Pisava em ovos: minha incapacidade em mudar de assunto.
Havia um esquema. Tu eras afetado por tudo e de agonia e raiva, sofria. Eu, se dava por isso, sofria também e isso te restituiria a paz, mas antes era importante que eu sofresse um pouco mais.
Do tosco das coisas com as quais fui me formando, foi surgindo a lembrança do isso-também-sou já esquecido. E mantive secretamente entreaberta a tampa de onde esse animal estava, para que seguisse respirando um ar meio fresco e ouvindo as vozes do resto da casa, embora estivesse mal alimentado. Quando tomei coragem, inspirei por nós dois (tu e eu), escancarei a tampa e resgatei o tal bicho, totalmente impávido, enquanto tu assistia a nós dois (o bicho e eu) sairmos pela porta grande sob o olhar daqueles teus olhos vermelhos de pranto que se segura.

Prêmio Dardos

Fiquei muito feliz em ser escolhido por um outro blog, o da excelente Lilly (ver André Lima freqüenta), mas não consigo postar a imagem. Por enquanto o que está valendo é a satisfação pelo reconhecimento tão generoso.

Leiam Lilly!

domingo, 22 de fevereiro de 2009



Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
faltando a abelha.

Emily Dickinson

(Trad.: Idelma Ribeiro de Faria)


Imagem: Pablo Gama



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Sobre o valor estético dos fatos, as pessoas e eu, e... Dorian?

Pessoa.

Ainda a respeito de como terminar aquela história e de como era esperado que as coisas tivessem sido(continuo com este problema de sempre voltar num assunto), me ocorreu de escrever algo assim:

'E a despedida nossa, promessa grandiosa de desespero e emoção à italiana, se esfacelou em pormenores vulgares'.

Aí, mais tarde, no mesmo dia, eu me deparei com isso no Dorian Gray:
"(...)Por que não consigo sentir esta tragédia tão profundamente como desejaria? Que te parece?
(...)
- Para mim a verdadeira explicação é a seguinte: acontece muitas vezes que as tragédias reais da vida ocorrem de maneira pouco artística e nos ferem pela sua violência rude, sua incoerência total; pela ausência absurda de significação e absoluta falta de estilo. Afetam-nos exatamente como pode nos afetar a vulgaridade. Causam impressão de força bruta que nos revolta. Às vezes, porém, a tragédia dotada de elementos de beleza artística atravessa-nos a vida. Se esses elementos de beleza forem reais, o drama apela para o nosso senso de efeito dramático; de súbito, percebemos que já não somos atores e sim expectadores da tragédia. Ou melhor: somos uma e outra coisa. Contemplamo-nos, e a simples singularidade do espetáculo cativa-nos. No caso presente, que aconteceu de fato? Alguém suicidou-se por amor a você. Quem me dera ter tido alguma vez esta sensação!"

Olha, Pessoa. Nisso tudo, digo do real já ido, vês também o horror que se transfigura em graça desmedida? Ou foi só constrangimento insensato mesmo? E o contrário disso e todo o resto que ainda somos, que é?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Estou roxo, com mãos presas ao pescoço. E elas são minhas, mas não dou por isso...*


Eu não quero mais te endereçar nada. Minha vida, chega de terceiros, sim? E também não quero que o que vem agora, através desta caneta seja o jorro indistinto que já conheço tão bem e começa a subir feito fervura. Eu sei bem o que limpo disso depois.
O que eu queria era uma vida qualquer, de ocupações honestas ou desonestas, mas sem filtros. Me falta o ver-o-novo de quem sempre realiza. Mas só afasto-me de tudo o que pode se realizar e vivo no mau sonho. Nem eu me salvo. Não posso, portanto, ter a esperança de me salvarem um dia. Se chegam agora, pessoa ou coisa em meu socorro, não poderei me jogar daqui. No fim á a gente apenas que salva a si próprio. Para além disso o que existem são meios.

Outra coisa: ver tudo como se fosse ser visto mais tarde. Como se daqui a uns minutos passados disso eu fosse ter um palco onde apresentar o que se acumulou. E diante de olhos expectantes: "olhem, estas são as minhas coisas", "foi isto que estive fazendo". Na verdade ainda creio nisso.

Tem um pessoal me seguindo e querendo me ver. Mas sou cego e não dou por isso. Apenas ouço murmúrios mal contidos e me sinto acuado. Não tenho a quem recorrer porque nada é concreto de se descrever e não tenho quem concorde comigo.

Por isso elimino todas as minhas possibilidades de realização? Me esquivo de conquistas? Invisto só em frustrações. Depois dou um jeito de lidar com elas.


*em um diário, já antigo.



imagem: Ana. - Exaltação de um turbilhão multicolorido I
http://www.olhares.com

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

"Isso" - eu disse - "é vivência".


Que bom que tu voltaste a ler,a ver tuas coisas. A recapturar um tu mesmo para além do que a gente compra, bebe, assiste na TV. Antes não precisavas. Era eu que te alimentava de fluidos - mais que isso: de espelhos, de danças loucas, de brilhos de espaçonaves. Aí, me faltaram (os meus). Fiquei exausto, mas estão por aqui ainda. Se há vantagem nisso tudo é eu ter descoberto que a fonte não seca. Não cessa de produzir os objetos claros, recobertos de cromo brilhante e com furta-cores de que tenho e sou. Estou esvaziado parcialmente, mas não sou vazio, tenho bastante de mim para esperar e, desta vez, manter por aqui. Mas olha, aproveita. Aproveita disso tudo que tiveste guardado bem no fundo (eu quase nem vi), enquanto vivias só de mim. Tira um pouco a casca grossa que se formou por cima, apagando a superfície que era luzidia nuns tempos e usa. Te come, te veste e mantém. Já que agora posso, te asseguro: não precisas economizar, não gasta, não seca. A fonte que em mim não terminou, tu bem podes perceber, já que usou, de certo tu também a tens.