quarta-feira, 25 de junho de 2008

18/06 e a miopia

... o meu olhar anda perdendo o foco. E o que eu perdi nisso e o que eu ganhei nisso foi a distinção que eu tinha,
de mim em relação ao que eu via.
No dia em que eu saí de casa com o olhar embaçado
eu não só não cumpri a-pena-diária-que-há-certo-tempo-havia-aceitado-que-a-mim-fosse-imputada, e,
de foco difuso meu olhar se recapturou também. Perdido que não se sabia num grande silêncio de coisas visíveis.
Eu vaguei no turvo, até ser surpreendido por um bruto carneiro de lã grossa - como o de antes - só que desta vez de um esverdeado amável e fosfóreo. E neste dia eu a tudo amei de novo
no outro
no novo outro
no futuro das coisas
e em mim.
No embaçado desse dia de um tempo tão curto, eu captei algo enfim mais de acordo com minha alma fluida do que as coisas que por anos de visão focada eu persegui.

quarta-feira, 30 de abril de 2008


Em que momento ele esqueceu que precisava procurar um sentido?

Em que momento ele esqueceu o que sempre soube: que a descoberta deste sentido - e o exercício dele - é que faria tudo valer a pena.

Como alguém que tivesse parado para descansar em longa jornada, e nisso relaxado tanto que não pensara mais em seu propósito ao invés de ter se esquecido dele apenas por um instante. Então, tornou a acordar-se repentinamente, e esse sobressalto o estremecia e fazia-o tontear. Era preciso esforçar-se: o que era mesmo que estava fazendo quando resolveu parar no caminho?

imagem: Via Sacra - David Sousa

segunda-feira, 24 de março de 2008


Queria muito precisar só de um amigo que me consolasse, e então teria certeza de estar querendo o inarrependível. Eu sei que quero demais. Mas viver sem o que tange o máximo me desola. Qual é o pecado de quem tem no alcance do pleno, parâmetro de satisfação razoável? Amanhã continuarei sendo eu mesmo. Amanhã eu não vou ser eu mesmo. Se não fosse eu mesmo agora, queria ser todo o resto. Tudo o que não é eu resta, mas em relação a mim somente. O todo fora eu me atrai. O mundo menos eu é o mesmo a que me referia, ainda a pouco, como "o que resta". No que é o resto relativo a mim me reflito desta forma. O mundo (menos eu) se me é. De modo que não pode ser outra minha transcendência: tento sê-lo. Porém o todo, sem recorte atento, é raso. Não há o que inferir no que é obtuso. Somente de um pedaço de intensidade é que jorra o fantástico brilho insuspeitado do instante, do pedaço de mundo que é neste momento. É por isso que me esgoto fácil. Sou intuído, explorado e concluído num agora bem pequeno. O amanhã me guardará completo se eu puder então realizar todas as possibilidades que admito sem nunca excluir nenhuma? Não. O amanhã não vem.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


Ter um sentimento de fuga é menos patético que o próprio momento que o gerou. E isso que acabei de dizer não quer dizer nada. Ou, só não é o que quero dizer. Não sei o que quero. Quero dizer a realidade de dentro, ser compreendido e isso ser belo. No entanto, apesar de o sentir bem, não vejo o de dentro: já sei que toda suposta compreensão é um espelho e não conheço o mecanismo que torna um momento belo. Ele o é, apenas.

Ter nas mãos uma destas nuvens fofas que vejo pela janela me daria um pouco disto que busco. Terminei de pensar isto e passei por um túnel: perdi de vista no instante do surgimento de um desejo, o objeto próprio deste desejo. Está em teoria de qualquer coisa psicológica, isto é uma alegoria.

A alegoria da nuvem. Mas eu não quero mesmo que ela seja mais do que uma fantasia, em dois sentidos desta palavra. Uma representação que adorna, um enfeite para o de dentro da minha cabeça que detesta o cinzento da própria massa de que é feito. A alegoria da nuvem branca e fofa na mão. A minha mão azul e brilhante para que a cena não seja de incompleta mágica. E alegria quase visível pairando. Coisa de deus hindu.

O lugar para onde estou fugindo precisa da alegria desta imagem. 'Alegria da alegoria', poderia ser o título. Acho que é. Porque me lembrei agora da alegria que também já me deram, há um tempo, a brincadeira com algumas aliterações. Mas acho que nunca tinha pensado nesta. E esta alegria lembrada também é um pouco o que busco agora. A alegria, não as palavras dela. Só queria fuga para um lugar onde tudo o que eu preciso me encontrasse e viesse a mim sem palavras.
Imagem: "Cantiga de Embalar" - Mariah

domingo, 9 de dezembro de 2007


Um cara através do vidro meio opaco de sujeira que separa os vagões, me deixa aflito porque se parece muito comigo. Ele está me olhando. O encaro até que sinto como se tivesse engolido uma folha seca e desvio os olhos. Sou tão indeciso que bobeio na plataforma antes de embarcar, não sei que vagão tomar. Já perdi um trem por isso. E outras coisas...

Devia ter entrado no outro, para olhar bem pra cara desse sujeito. Me sentaria ao seu lado e cuspiria na minha face de idiota que ele tem. O secaria com minha manga e pediria desculpas quando olhasse através da vidraça e visse minha expressão de curiosidade atrevida e deseducada do lado de cá. Não era mesmo eu, estive aqui o tempo todo.

O tempo todo é suficiente para desaprovar minhas atitudes. O meu inferno é me dar conta. Eu sempre sei o que é possível. Tudo é uma história e eu me garanto todas as possibilidades de enredo. Estou preso nisso. É aterrador.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

tudo parece mais limpo
uma perda limpa tudo
mas é uma limpeza de falta,
contenção e, estranhamente, de paz

paz sem prazer

terça-feira, 6 de novembro de 2007

7 anos


Eu nem sei com quem estou falando, mas é preciso ir dizendo. Eles já sabiam que filhos não nascem senão parecidos com os pais. Eu também sabia. Tratávamos assim do que era possível com aplicação e intensidade.

Além disso, eu também sabia da minha baixa auto-estima e confiava nela. Não acreditando eu chegaria a algum lugar; algum lugar que eu queria. Onde eu encontraria eu só pra mim. Mas não podia começar a me gostar antes disso.

E deles? Deles eu gostava demais. Era bonito porque, embora esse amor fosse expresso inclusive por palavras, ninguém tomava propriamente conhecimento disso. Vivíamos: eles dando conta de tudo sobre mim, de como eu poderia crescer me alimentando do que há. De como eu deveria cuidar da hora de dormir, escovar os dentes e aparecer diante das visitas, e sorrir para as visitas e aceitar sem cara de asco o desejo destes alheios em devorar minha face. Portanto, de como eu poderia vir a ser para tudo. Mas eu só queria ser um tirano de coração frágil, como eles. Como eles ter cinco metros de altura, um cúmplice e desprezo de amor por um menor. Aprendi a ser ansioso como forma de acelerar a vinda da transformação final que me traria a carcaça do novo eu. Gigante que ocuparia como prêmio pela aplicação em ser então esta simples coisinha necessária que colore, enfurece e faz engasgar de ternura.