segunda-feira, 24 de março de 2008


Queria muito precisar só de um amigo que me consolasse, e então teria certeza de estar querendo o inarrependível. Eu sei que quero demais. Mas viver sem o que tange o máximo me desola. Qual é o pecado de quem tem no alcance do pleno, parâmetro de satisfação razoável? Amanhã continuarei sendo eu mesmo. Amanhã eu não vou ser eu mesmo. Se não fosse eu mesmo agora, queria ser todo o resto. Tudo o que não é eu resta, mas em relação a mim somente. O todo fora eu me atrai. O mundo menos eu é o mesmo a que me referia, ainda a pouco, como "o que resta". No que é o resto relativo a mim me reflito desta forma. O mundo (menos eu) se me é. De modo que não pode ser outra minha transcendência: tento sê-lo. Porém o todo, sem recorte atento, é raso. Não há o que inferir no que é obtuso. Somente de um pedaço de intensidade é que jorra o fantástico brilho insuspeitado do instante, do pedaço de mundo que é neste momento. É por isso que me esgoto fácil. Sou intuído, explorado e concluído num agora bem pequeno. O amanhã me guardará completo se eu puder então realizar todas as possibilidades que admito sem nunca excluir nenhuma? Não. O amanhã não vem.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


Ter um sentimento de fuga é menos patético que o próprio momento que o gerou. E isso que acabei de dizer não quer dizer nada. Ou, só não é o que quero dizer. Não sei o que quero. Quero dizer a realidade de dentro, ser compreendido e isso ser belo. No entanto, apesar de o sentir bem, não vejo o de dentro: já sei que toda suposta compreensão é um espelho e não conheço o mecanismo que torna um momento belo. Ele o é, apenas.

Ter nas mãos uma destas nuvens fofas que vejo pela janela me daria um pouco disto que busco. Terminei de pensar isto e passei por um túnel: perdi de vista no instante do surgimento de um desejo, o objeto próprio deste desejo. Está em teoria de qualquer coisa psicológica, isto é uma alegoria.

A alegoria da nuvem. Mas eu não quero mesmo que ela seja mais do que uma fantasia, em dois sentidos desta palavra. Uma representação que adorna, um enfeite para o de dentro da minha cabeça que detesta o cinzento da própria massa de que é feito. A alegoria da nuvem branca e fofa na mão. A minha mão azul e brilhante para que a cena não seja de incompleta mágica. E alegria quase visível pairando. Coisa de deus hindu.

O lugar para onde estou fugindo precisa da alegria desta imagem. 'Alegria da alegoria', poderia ser o título. Acho que é. Porque me lembrei agora da alegria que também já me deram, há um tempo, a brincadeira com algumas aliterações. Mas acho que nunca tinha pensado nesta. E esta alegria lembrada também é um pouco o que busco agora. A alegria, não as palavras dela. Só queria fuga para um lugar onde tudo o que eu preciso me encontrasse e viesse a mim sem palavras.
Imagem: "Cantiga de Embalar" - Mariah

domingo, 9 de dezembro de 2007


Um cara através do vidro meio opaco de sujeira que separa os vagões, me deixa aflito porque se parece muito comigo. Ele está me olhando. O encaro até que sinto como se tivesse engolido uma folha seca e desvio os olhos. Sou tão indeciso que bobeio na plataforma antes de embarcar, não sei que vagão tomar. Já perdi um trem por isso. E outras coisas...

Devia ter entrado no outro, para olhar bem pra cara desse sujeito. Me sentaria ao seu lado e cuspiria na minha face de idiota que ele tem. O secaria com minha manga e pediria desculpas quando olhasse através da vidraça e visse minha expressão de curiosidade atrevida e deseducada do lado de cá. Não era mesmo eu, estive aqui o tempo todo.

O tempo todo é suficiente para desaprovar minhas atitudes. O meu inferno é me dar conta. Eu sempre sei o que é possível. Tudo é uma história e eu me garanto todas as possibilidades de enredo. Estou preso nisso. É aterrador.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

tudo parece mais limpo
uma perda limpa tudo
mas é uma limpeza de falta,
contenção e, estranhamente, de paz

paz sem prazer

terça-feira, 6 de novembro de 2007

7 anos


Eu nem sei com quem estou falando, mas é preciso ir dizendo. Eles já sabiam que filhos não nascem senão parecidos com os pais. Eu também sabia. Tratávamos assim do que era possível com aplicação e intensidade.

Além disso, eu também sabia da minha baixa auto-estima e confiava nela. Não acreditando eu chegaria a algum lugar; algum lugar que eu queria. Onde eu encontraria eu só pra mim. Mas não podia começar a me gostar antes disso.

E deles? Deles eu gostava demais. Era bonito porque, embora esse amor fosse expresso inclusive por palavras, ninguém tomava propriamente conhecimento disso. Vivíamos: eles dando conta de tudo sobre mim, de como eu poderia crescer me alimentando do que há. De como eu deveria cuidar da hora de dormir, escovar os dentes e aparecer diante das visitas, e sorrir para as visitas e aceitar sem cara de asco o desejo destes alheios em devorar minha face. Portanto, de como eu poderia vir a ser para tudo. Mas eu só queria ser um tirano de coração frágil, como eles. Como eles ter cinco metros de altura, um cúmplice e desprezo de amor por um menor. Aprendi a ser ansioso como forma de acelerar a vinda da transformação final que me traria a carcaça do novo eu. Gigante que ocuparia como prêmio pela aplicação em ser então esta simples coisinha necessária que colore, enfurece e faz engasgar de ternura.

sábado, 20 de outubro de 2007

Sobre as atividades humanas e a primeira conclusão metafísica: No mundo existem coisas.


"Quem a mim me nomeia o mundo? Estar aqui no existir da Terra, nascer, decifrar-se, aprender a deles adequada linguagem, estar bem

não estou bem, Ehud

ninguém está bem, estamos todos morrendo

Antes havia ilusões não havia? Morávamos nas ilusões. Ehud, e se eu costurasse máscaras de seda, ajustadas, elegantes, por exemplo, se eu estivesse serena sairia com a máscara da serenidade, leve, pequenas pinceladas, um meio sorriso, todos os que estivessem serenos usariam a mesma máscara, máscaras de ódio, de não disponibilidades, máscaras de luto, máscaras de não pacto, não seria preciso perguntar, vai bem como vai etc., tudo estaria na cara

Não pactuo com as gentes, com o mundo, não há um sol de ouro lá fora, procuro a caminhada sem fim, te procuro (...), a viva compreensão da vida é segurar o coração. me faz um café".
Hilda Hilst (Trecho de A Obscena Senhora D)
obs. minha: Não sou tão desatento quanto parece, a pontuação e os espaços são assim mesmo

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Acidentes [4(de4)]


A segunda história é também a última (quem não suspeitava?...), porque a que eu tinha preparado para ser a terceira já me entediou e o segundo final do que foi a primeira quase vale por mais uma. Não?
Assim, a última história é a do homem na Espanha que comprou uma casa de praia em um leilão de coisas cujos donos as perderam porque pararam de pagar as prestações. Ao visitar o novo imóvel pela primeira vez, ele encontrou a antiga dona da casa no sofá da sala, mumificada pela maresia, sentada há seis anos, quando pagou uma prestação pela última vez e começou a ficar endividada com a financiadora. Esta senhora que nunca tinha sido exatamente vívida pelo menos tinha antes alguma atividade e um certo teor de água em sua constituição física. Seis anos atrás, porém, ela parou totalmente de se mover e oficializou sua não-existência. Depois, contou-se também, que ela tivera irmãos e filhos que viviam em Madrid, de amigos nunca se ouviu falar e a polícia jamais registrou um relato de desaparecimento seu.

Eu, que além de coisas, gosto de pensar em não-coisas, imagino se é verdadeiro pensar que esta senhora desapareceu do mundo. Ou melhor, talvez sua morte seja de um período muito anterior ao de seis anos atrás. Quando é que ela deixou de existir? Quando foi seu último "aparecimento"? Tivesse eu alguma autoridade na Espanha e determinaria, a respeito da morte ou desaparecimento dessa mulher o seguinte: que em vez de se fazer uma certidão de óbito baseado na análise físico-química de um pedaço de múmia que se procure a pessoa que relate a mais recente lembrança provocada por sua presença e se registre nesta data seu falecimento, caso não se encontre tal relato, que seja anulada sua certidão de nascimento.


PS: Ironicamente, e talvez para me pôr na insegurança de quem pressente pensar errado, dou-me agora conta de que, como um faraó que que viveria eternidade afora, pelo próprio tempo ela foi mumificada...



Imagem: Simão Pereira de Magalhães - A Porta