quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Sobre o valor estético dos fatos, as pessoas e eu, e... Dorian?

Pessoa.

Ainda a respeito de como terminar aquela história e de como era esperado que as coisas tivessem sido(continuo com este problema de sempre voltar num assunto), me ocorreu de escrever algo assim:

'E a despedida nossa, promessa grandiosa de desespero e emoção à italiana, se esfacelou em pormenores vulgares'.

Aí, mais tarde, no mesmo dia, eu me deparei com isso no Dorian Gray:
"(...)Por que não consigo sentir esta tragédia tão profundamente como desejaria? Que te parece?
(...)
- Para mim a verdadeira explicação é a seguinte: acontece muitas vezes que as tragédias reais da vida ocorrem de maneira pouco artística e nos ferem pela sua violência rude, sua incoerência total; pela ausência absurda de significação e absoluta falta de estilo. Afetam-nos exatamente como pode nos afetar a vulgaridade. Causam impressão de força bruta que nos revolta. Às vezes, porém, a tragédia dotada de elementos de beleza artística atravessa-nos a vida. Se esses elementos de beleza forem reais, o drama apela para o nosso senso de efeito dramático; de súbito, percebemos que já não somos atores e sim expectadores da tragédia. Ou melhor: somos uma e outra coisa. Contemplamo-nos, e a simples singularidade do espetáculo cativa-nos. No caso presente, que aconteceu de fato? Alguém suicidou-se por amor a você. Quem me dera ter tido alguma vez esta sensação!"

Olha, Pessoa. Nisso tudo, digo do real já ido, vês também o horror que se transfigura em graça desmedida? Ou foi só constrangimento insensato mesmo? E o contrário disso e todo o resto que ainda somos, que é?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Estou roxo, com mãos presas ao pescoço. E elas são minhas, mas não dou por isso...*


Eu não quero mais te endereçar nada. Minha vida, chega de terceiros, sim? E também não quero que o que vem agora, através desta caneta seja o jorro indistinto que já conheço tão bem e começa a subir feito fervura. Eu sei bem o que limpo disso depois.
O que eu queria era uma vida qualquer, de ocupações honestas ou desonestas, mas sem filtros. Me falta o ver-o-novo de quem sempre realiza. Mas só afasto-me de tudo o que pode se realizar e vivo no mau sonho. Nem eu me salvo. Não posso, portanto, ter a esperança de me salvarem um dia. Se chegam agora, pessoa ou coisa em meu socorro, não poderei me jogar daqui. No fim á a gente apenas que salva a si próprio. Para além disso o que existem são meios.

Outra coisa: ver tudo como se fosse ser visto mais tarde. Como se daqui a uns minutos passados disso eu fosse ter um palco onde apresentar o que se acumulou. E diante de olhos expectantes: "olhem, estas são as minhas coisas", "foi isto que estive fazendo". Na verdade ainda creio nisso.

Tem um pessoal me seguindo e querendo me ver. Mas sou cego e não dou por isso. Apenas ouço murmúrios mal contidos e me sinto acuado. Não tenho a quem recorrer porque nada é concreto de se descrever e não tenho quem concorde comigo.

Por isso elimino todas as minhas possibilidades de realização? Me esquivo de conquistas? Invisto só em frustrações. Depois dou um jeito de lidar com elas.


*em um diário, já antigo.



imagem: Ana. - Exaltação de um turbilhão multicolorido I
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

"Isso" - eu disse - "é vivência".


Que bom que tu voltaste a ler,a ver tuas coisas. A recapturar um tu mesmo para além do que a gente compra, bebe, assiste na TV. Antes não precisavas. Era eu que te alimentava de fluidos - mais que isso: de espelhos, de danças loucas, de brilhos de espaçonaves. Aí, me faltaram (os meus). Fiquei exausto, mas estão por aqui ainda. Se há vantagem nisso tudo é eu ter descoberto que a fonte não seca. Não cessa de produzir os objetos claros, recobertos de cromo brilhante e com furta-cores de que tenho e sou. Estou esvaziado parcialmente, mas não sou vazio, tenho bastante de mim para esperar e, desta vez, manter por aqui. Mas olha, aproveita. Aproveita disso tudo que tiveste guardado bem no fundo (eu quase nem vi), enquanto vivias só de mim. Tira um pouco a casca grossa que se formou por cima, apagando a superfície que era luzidia nuns tempos e usa. Te come, te veste e mantém. Já que agora posso, te asseguro: não precisas economizar, não gasta, não seca. A fonte que em mim não terminou, tu bem podes perceber, já que usou, de certo tu também a tens.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008


A pura verdade é que não dormi naquela noite. Naquela em que você me disse: "volta", e eu ignorei a mensagem. Pensei que poderia voltar ao mesmo tempo em que me dei conta de que não, sempre soube que, depois de ter ido, não poderia. Ignorei então de novo e soube que eu iria sofrer sabendo que você sofreria mais. No dia seguinte fui dormir às seis da tarde: sonhei que corri atrás de você na rua e toquei teu ombro pensando "há quanto tempo!", você se virou e eu disse "não me perdoe, porque você não deve, não é o caso, mas olha, o que eu fiz não foi a satisfação de um desejo". Ficou bem a frase completa, mas na verdade, só a primeira parte aconteceu mesmo, isto é, sonhei mesmo. Essa coisa do desejo eu pensei depois de acordar. Incluo agora na re-invenção imaginada dessa história toda a parte que eu quase gostaria que tivesse acontecido, não fosse o caso de cada uma delas estragar tudo, toda naturalidade do que foi. Porque somos esses que isso viveram, isso nunca poderia ter sido outra coisa. É.
imagem: José Meneses - Splash

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A música que me persegue hoje (talvez exorcise ela aqui)

(...)



Estás conmigo,

Estamos cantando a la sombra de nuestra parra.

Una canción que dice que uno sólo conserva lo que no amarra.

Y sin tenerte, te tengo a vos y tengo a mi guitarra.



Hay tantas cosas

Yo sólo preciso dos:

Mi guitarra y vos

Mi guitarra y vos.



(...)


Hay escritas infinitas palabras: Zen, gol, bang, rap, Dios, fin...



Hay tantas cosas

Yo sólo preciso dos:

Mi guitarra y vos

Mi guitarra y vos.



(Jorge Drexler)




quinta-feira, 24 de julho de 2008

14/07 e sobre ser gravemente confessional




É, minha filha (mulher chorando no trem). Também te parece que isso é o que mais temos feito ultimamente? Por que é que estamos salgados, anjo meu? Mulher de cabelo oxigenado, um roxo-amarelado no braço, encostada à parede numa parte onde não tem janela, olha através como se tivesse. Aonde foi que chegamos, você e eu, se tivermos já chegado? E onde foi que vacilamos, se for por mau passo (antigo como a própria expressão) que estamos respondendo agora? Eu queria um mais doce, um mais dito. Um mal dito, mal feito, mal assombrado. Um mal-assombro é o que sinto vendo a nós - seres que éramos do lado simples - aqui do lado da paixão roxa-fosforescente, luz negra que não se usa para ver. Escarafunchamos deste lado nosso amesquinhado virar-se do avesso, constrangedor, não desejado e ainda assim orgulhoso. Como certa mulher a que assisti uma vez, tendo que juntar sacola arrebentada num banco de parque. Seus objetos expostos, seu brutíssimo cenho ao expô-los. Ah, ela ainda não precisara odiar tanto naquele ano.

Sai, pode sair letra representativa dessas negras coisas. Sal de coisa mal enxaguada. Sai pela culatra, pela língua em fôrma sólida e não cursiva. Personifique-se latência explorada diante da tal especialista. Me sinto filho de carne crua.


Perdi a mulher que chora. Onde está? Preciso de mais dureza patética, cinza, roxa, negra, vulgar.





imagem: Carlos Tavares - Sem título
(www.olhares.com)